Mas você gosta de pizza de banana com canela e eu detesto misturar doce com salgado. Você tem a língua presa e eu tenho nervoso de gente que demora muito pra falar. Eu sou rápida e prática e você nesse tatibitate enjoativo… Tu curte música eletrônica e eu me irrito porque parece que aquela quantidade toda de “tuntz tuntz” é uma lavagem cerebral psicodélica e que todas as músicas são iguais - se é que dá pra chamar aquilo de música. Cê só vai perder a virgindade depois do casamento e eu aqui falando de sexo oral e 69. Acho que eu te assusto um pouco, na verdade. Te intimido com esse meu jeito precoce-moderninha-experiente que é pura fachada; no fundo, se duvidar, sou mais antiquada do que você com esse anel de castidade ridículo e sou contra o aborto. E nunca beijei outra menina nem fumei maconha. Mas fico aqui e faço pose de quem já provou de tudo só pra despertar qualquer tipo de curiosidade em você… E você com essa cara de deslumbrado exibindo seu 10 em Biologia, nem percebe que hoje eu coloquei um sutiã de enchimento e tô usando lápis de olho. Nem reparou que eu fiz um terceiro furo na orelha esquerda porque você disse que curte essas coisas. Você já sabe descascar laranja e eu aqui comendo tangerina por preguiça. E tu tem cara de quem sabe o significado de “filantropia”. Você fala Francês e eu ainda me embolo toda com verb to be. E você nunca pensou em suicídio e já visitou até Dubai se duvidar. É engraçado porque eu nem sei andar de patins e você tem pinta de quem sabe andar de monociclo fazendo malabarismo com bombas-relógio. E eu faço de tudo pra chamar tua atenção, uso todas as minhas artimanhas pra parecer superior porque você faz eu me sentir pequenininha sem esforço algum… Onde quer que você vá parece que tem uma aura iluminada te acompanhando. Você é tão você que me deixa de saco cheio. E só deve ter beijado umas 5 meninas na vida. Você tem cara de quem dispensaria a Megan Fox e eu aqui babando no meu pôster do Caio Castro. E você corta o cabelo de 15 em 15 dias. E não gosta de meninas que usam maquiagem. E tem um autógrafo do Marcelo Camelo, por mais que odeie Los Hermanos. É, eu gosto de Los Hermanos. Mas você nunca vai saber. E você tem cheiro de baunilha misturado com coisa da Apple. E a sua beleza é daquele tipo enjoativo, eu não conseguiria olhar pra você por mais de 23 segundos sem ter vontade de te sacudir e gritar na tua cara que você não sabe o quanto a sua perfeição é chata. E o quanto os teus olhos castanhos não impressionam ninguém e o quanto teu cabelo espetado não dá vontade de passar a mão. E o quanto você é ridículo por não andar na moda porque se acha cool demais pra isso. E você nem deve saber o que eu quero dizer com cool. Eu te odeio porque você nunca vai ser adolescente e eu nunca vou ser adulta. E porque eu não consigo dormir de luz apagada e você é tão você que nem acredita em Deus. E não deve ter medo de nada. E eu tenho medo até da minha sombra. Você tem cara de quem vai casar, ser doutor, ter três filhos lindos e nunca ser feliz - mas achar que é feliz, o que vai ser o suficiente pra não ficar triste. E eu sou feliz e triste e ao mesmo tempo nenhum dos dois. Eu sei de tudo e às vezes acho que não sei de nada, você nem quer saber. Porque você gosta de gravatas e de brigadeiro branco. E eu não poderia ser diferente porque eu odeio granulado colorido e água gelada. Eu odeio as coisas que as pessoas gostam. E eu te odeio porque todo mundo gosta de você… E você é tão morno. Tão meio termo. Tão mais ou menos. É aquele tipo de pessoa que passa por você na rua e te pergunta as horas. Você é um sujeito indeterminado que usa jeans e tem um relógio colorido. E cílios grandes. Mas eu ainda te odeio. Porque eu odeio gente cheirosa, inteligente e equilibrada. Você joga xadrez e toca até saxofone, se duvidar. Eu escuto pagode meloso escondida enquanto você tá estudando Matemática e conversando com alguma amiga mais bonita que eu. E mais cheirosa e inteligente e talentosa. Você joga Tênis aos domingos e eu ainda choro com Um Amor Pra Recordar. Você lava a louça sem a sua mãe pedir e eu não arrumo meu armário desde… Desde… […] Eu gosto de sangue e você gosta de astronomia. Eu gosto de ficar triste e você sabe fazer Yakisoba. Eu odeio domingos e toalhas que não secam e você nem perde seu tempo pensando nessas coisas. Você nem sabe tudo que eu falei sobre você nesse texto, e que esse teu jeito yin mexe com o meu yang. Você não sabe que eu fico estudando teu jeito porque você, só de existir, já é três vezes mais interessante do que qualquer sentimento que eu inventei ou qualquer lágrima que eu forcei. E qualquer livro da Clarice Lispector. E qualquer outra pessoa que qualquer outra pessoa já tenha conhecido. E eu te odeio porque você nunca votou no Big Brother nem fingiu que estava bêbado porque não queria se sentir excluído. E porque você nunca deve ter visto um pornô na vida. E porque você sabe fazer cálculo com vírgula e tem cara de que vai assumir a empresa do pai. E eu esqueço de lavar minhas calcinhas e escrevo textos românticos sem estar apaixonada. […] Mas nós dois gostamos de café. Entende agora? Me apaixonar por você foi tão imprevisível, quanto inevitável.